Misericórdia e missão

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Misericórdia e missão

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O 5o Encontro do Centro de Estudos Missionários Latino Americano (CEMLA) foi realizado no Centro Cultural Conforti em Curitiba, PR, de 27 de fevereiro a 2 de março de 2017, e estavam presentes os xaverianos Rafael Lopez Villaseñor, Estêvão Raschietti, Xavier Martinez, Gerardo Custodio, Franco Benigni, junto com as xaverianas Elisabete Miguel Espinhara, Tea Frigerio, Elisa Silva Sánchez. Depois de uma breve avaliação da caminhada, na qual constatamos a necessidade de uma reflexão critica sobre a missão para o momento histórico que estamos vivendo, passamos a apresentar e a debater os trabalhos realizados ao longo do último ano. Um primeiro grupo de textos trabalharam o tema da misericórdia, como tínhamos estabelecido no encontro de Medellín, Colômbia, em fevereiro de 2016. Elisa Silva Sánchez expus seu ensaio sobre “A compaixão de Jesus: paradigma e opção de vida”. Numa abordagem teológico-espiritual, baseada na proposta joanina, a autora procurou resgatar a compaixão como paradigma para compreender a realidade, penetrando o coração compassivo de Jesus que aponta para uma nova maneira de olhar e de estar no mundo. Tratase de uma compaixão que nasce de uma contemplação que transforma a pessoa e seu conjunto, fruto de uma profunda e forte rede de relações que tem como origem a relação fundante de Jesus com o Pai. Em seguida, Tea Frigerio e Beth Espinhara dissertaram sobre o tema “No princípio estava a Misericórdia”, com uma primeira parte de investigação bíblica e uma segunda parte de conexão com a história e a devoção de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. O “principio misericórdia” é o elo que perpassa o texto a partir do Primeiro Testamento e que revela o seragir de Deus como Misericórdia. Esta Misericórdia entra na historia e caminha conosco definitivamente em Jesus de Nazaré. No Brasil, a Aparecida concretiza o Principio Misericórdia na opção pelos empobrecidos. As autoras concluíram seu ensaio desafiando conjugar “missão – paz – misericórdia” num mundo onde predomina uma cultura de morte, de ante-vida, de ante-misericórdia: a fidelidade à vida é a razão da misericórdia. Passamos, portanto, à reflexão de Zacarías Tamejon que aborda o tema da misericórdia a partir da vida religiosa consagrada, quase como “uma espécie de confissão pública” : “As obras de misericórdia desde dentro”. Zacarías enfrenta a contradições e os conflitos das relações na comunidade religiosa sob o perfil das sete obras de misericórdia corporais e espirituais, chegando à conclusão que essas obras vividas em nossas comunidades se tornam pólo de atração: “um sinal de boa saúde de uma comunidade é quando todos seus membros se sentem à vontade, acolhidos, de maneira que qualquer visitante de fora respira também esse ar de misericórdia”. A dimensão existencial da misericórdia leva os discípulos missionários e missionárias a assumir atitudes proféticas e de denúncia diante de situações de degradação e de morte. O artigo de Xavier Martinez convida a olhar para a Amazônia como um desses contextos em que a misericórdia é chamada a acolher o grito da terra no cuidado com a criação, os povos originários e as culturas tradicionais: “habitar na floresta com a maior biodiversidade do planeta, santuário da vida ameaçado e ferido, conviver com a violência estrutural que flagela os povos originários, deveria qualificar, enriquecer e ao mesmo tempo questionar a nossa pratica missionária e a nossa espiritualidade”. Este caminho vai nos ajudar a superar o viés colonialista, a tentação do etnocentrismo e nos encaminhar para uma missão mais discreta e humilde fundada sobre o testemunho de vida cristão. Um segundo grupo de textos, trabalharam a questão da interculturalidade e da inculturação num enfoque histórico e sociológico. Franco Benigni apresentou o tema dos aportes do México antigo à interculturalidade xaveriana: “Linhas principais da filosofia Nahuatl”. Sua intervenção teve como finalidade evidenciar a dignidade, a profundidade e a intensidade do pensamento filosófico e teológico mesoamericano antes da conquista. O objetivo maior é o que os povos indígenas se apoderem da importância de sua tradição e de sua cultura, conscientes de sua dignidade humana, cultural e intelectual. Consequentemente, uma verdadeira evangelização poderá dar-se somente no reconhecimento e no respeito dessas culturas, em busca da verdadeira paz para todos. Por sua vez, Gerardo Custodio abordou a temática da inculturação da mensagem guadalupana e sua atualidade. À luz das obras de Bernardino de Sahagún, o primeiro missionário que tentou compreender a cultura e a religião local, e de Robert Schreiter, que propus critérios para inculturar uma mensagem de acordo com um contexto específico, Gerardo chega à conclusão que o que aconteceu em Tepeyac mostra uma nova e genuína maneira de adaptar a fé cristã para a vida dos povos do mundo novo. O evento de Guadalupe foi compreendido pelos nativos e cheio de significado para eles, mas não para os estrangeiros. O resgate desta tradição aponta para a necessidade de uma renovação penitencial da missão ad gentes. Enfim, Rafael Lopez discute o assunto das comunidades interculturais no mundo globalizado, seus desafios e suas perspectivas. Os novos e os velhos paradigmas não dão conta de responder às inquietudes da interculturalidade. As antigas certezas foram substituídas pelas dúvidas e as verdades, por novas interrogações. Formar comunidades interculturais é um aprendizado, que ajuda a superar o etnocentrismo. Viver a interculturalidade requer maturidade, misericórdia e atitude de conversão permanente. Como congregação missionária somos provocados a perceber a importância vital de um relacionamento criativo que implica partilha de vida, experiência e conhecimento mutuo, como condição essencial para o respeito, a construção da paz e harmonia universal. Pela ocasião desse 5o Encontro do CEMLA, tivemos a grata visita do Conselheiro Geral Pe. Eugênio Pulcini. Ele nos lembrou que o anuncio do Evangelho deve andar junto ao conhecimento do ambiente cultural e mostrou-se preocupado com o pouco interesse pela cultura local que existe entre as novas gerações. Recordando as palavras do saudoso Pe. Luigi Menegazzo, o nosso irmão reafirmou com decisão o amor a cultura como caminho para o anúncio do Evangelho e como tarefa de animação dos Centros de Estudos Missionários. Por último, Estêvão Raschietti apresentou seu ensaio sobre “Âmbitos privilegiados da missão ad gentes para o leigo missionário”, que preparou por ocasião do Seminário promovido pelo Secretariado Internacional da Pontifícia União Missionária, de 13 a 18 de fevereiro, em Roma. Há uma necessidade de reconstruir um quadro geral da atuação missionária entre missionariedade fundamental e projetos missionários distintos, à luz da projeção ad gentes, diante das mudanças epocais e a partir da participação de todo Povo de Deus. Desta reconstrução se abre um leque de engajamento que inclui pastorais locais até a participação de leigos e leigas em projetos além-fronteiras. Todo Povo de Deus é chamado a participar da dimensão universal da missão, de diferentes maneiras e diferentes formas, todas elas essenciais, significativas e relevantes para o anúncio do Reino de Deus. Todos esses aportes para o quarto caderno do CEMLA têm como elo comum a relação entre misericórdia e missão. Misericórdia não representa apenas um sentimento de complacência em relação à fragilidade de possíveis interlocutores: pelo contrario, é uma perspectiva transformadora de acolhida e reconhecimento do outro como sujeito em todo seu inestimável valor. Ao ver as multidões, Jesus teve compaixão “porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9,36). Logo depois, porém, a metáfora muda de uma imagem de desolação para uma de abundância: “a colheita é grande!”. Os olhos de Jesus, que são os olhos do Pai, vêem nestas “ovelhas perdidas” uma “grande colheita”. Da mesma maneira, a 2a Conferência Geral do Episcopado Latino Americano em Medellín (1968) reconheceu que os pobres não são miseráveis, mas gozam de um valor inestimável aos olhos de Deus (cf. DM, A pobreza da Igreja 7). A verdadeira misericórdia nasce desta contemplação. Fundadores e fundadoras de congregações de vida apostólica conseguiram ver oportunidades onde os outros viram apenas problemas: tinham olhos para ver nos pobres, nos marginalizados, nos jovens, nos sofredores, nos deficientes, nos migrantes, nas mulheres, nos negros, nos indígenas, algo de grandioso e de bonito, um potencial, uma “grande colheita” (Mt 9,37) pela qual valia a pena investir. Conseguiram transmitir essa paixão a outros e outras que seguiram o mesmo caminho, atraídos e inspirados por seus carismas. Hoje, porém, é preciso avançar porque o mundo dos nossos fundadores ao existe mais. Da mesma forma que a igreja apostólica teve que romper com tradições, convicções e paradigmas para abrir-se aos gentios, assim as comunidades missionárias do século XXI são chamadas a enxergar a realidade atual com os olhos misericordiosos de Deus para abrir novos caminhos. Comprometemo-nos continuar essa reflexão para o próximo encontro do CEMLA, que acontecerá na Cidade do México de 19 a 23 de fevereiro de 2018, aprofundando o enfoque: “Rostos religiosos e culturais da America Latina”.

Curitiba, 2 de março de 2017

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