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Uma dívida para o futuro

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Paulo Freire é conhecido por todos, por ser considerado um dos educadores mais importantes do século XX, mas sobretudo porque escolheu ensinar os muitos povos esquecidos da América Latina, convidando-os a tomar consciência de seus direitos. Sua pedagogia, até hoje, é sinônimo de uma busca quase acirrada pela igualdade social inatingível, por uma crítica educativa para um despertar necessário das manipulações de todos os tipos, mas também de uma alfabetização em constante avanço. O caminho de que fala Freire não é metafórico, mas feito de viagens, de uma pedagogia da pergunta, mas também de um encontro autêntico com o outro em sua plena corporeidade.

A pedagogia da esperança, uma de suas grandes obras, é, por exemplo, uma nova forma de conceber o conceito revolucionário de esperança, que Freire discute, analisa e, sobretudo, defende como componente integral e essencial da educação. Nela, apresenta aos leitores de então, mas também de hoje, a face construtiva da esperança, que não é estática nem puramente emocional, mas é uma força formativa e projetiva. É uma mensagem dirigida sobretudo aos intelectuais dos anos setenta, que, em sua opinião, caíram perigosamente na tentação neoliberal de ignorar o povo em favor de um progresso sem escrúpulos e selvagem. Uma biografia filosófica de Freire foi recentemente publicada no Brasil pelo filósofo educacional Walter Omar Kohan, um dos principais estudiosos do pensamento do pedagogo (1921-1997).

É bonito e quase comovente deixar que fale uma das filhas de Freire, Fátima, ela mesma é protagonista da pedagogia de hoje. “Como revela a biografia de meu pai, ele cresceu em uma família profundamente católica e muitas vezes, lembra que nunca desistiu de sua fé, apesar da forte influência da filosofia marxista em seus escritos. Meu pai me ensinou muitas coisas, mesmo contra sua vontade, mas sobretudo me fez entender que todo educador é, antes de tudo, um devedor, que deve transmitir tudo o que aprendeu e, se possível, deve tentar fazê-lo ainda melhor do que o que ele recebeu de seus mestres. A verdadeira dívida, porém, não é com aqueles que o precederam, mas com aqueles que esperam o amanhã de braços abertos para aprender. O educador está em dívida com um futuro que espera ser preenchido”.

Fátima Freire sabe que tem uma grande responsabilidade, no panorama da pedagogia atual, como filha de Paulo, patrono da educação no Brasil e o terceiro pensador mais citada em trabalhos acadêmicos ao redor do mundo. No entanto, sua mãe, Elza Maia Costa Freire (1916-1986), também foi uma grande educadora, e é a ela que Fátima atribui sua maior influência para seguir essa caminhada pedagógica.

Como é que cita sua mãe e não seu pai?

Quando criança acompanhei minha mãe à escola pública, onde ela trabalhava como diretora e ela gostava tanto, que o fazia com um entusiasmo único. Obviamente eu também recebia muito do meu pai, mas eu estava sempre ao lado da minha mãe, enquanto meu pai também tinha a tarefa de ajudar os outros, indo para as vilas mais distantes. E o caminho dele não podia ser interrompido. De ambos compreendi que não posso parar: há muito o que fazer aqui para combater o analfabetismo dos mais pobres, dos totalmente esquecidos. Como sempre digo, meu pai me influenciou justamente porque não me influenciou.

A vida de seus pais é certamente entusiasmante: qual episódio tem mais impacto?

Difícil dizer, os episódios foram muitos. Por exemplo, lembro que meu pai também trabalhou nos movimentos de educação popular do início dos anos sessenta; aliás, foi um dos fundadores do Movimento de Cultura Popular do Recife, e ali trabalhou, rodeado por outros grandes intelectuais, no sentido de contribuir, por meio da valorização da cultura popular, para a presença participativa das consideradas massas na sociedade brasileira. Talvez hoje seja difícil entender o que realmente significava, mas não para quem conhecia bem a América Latina daqueles anos. Os encontros daquela época são indeléveis na memória de nós, crianças. Esse movimento marcou profundamente ele e toda a nossa família, mas também a história do nosso povo. Com seu amplo conceito de educação popular progressista, influenciou a campanha “De pé no chão também se aprende a ler,” criada pelo prefeito de Natal, no Rio Grande do Norte, local que, ainda hoje vive a gratidão ao meu pai. Este trabalho intenso e difundido no meio rural permitiu-lhe ser conhecido, nacional e internacionalmente, como um educador ligado aos problemas do povo, às suas questões políticas, segundo o alto significado dos antigos gregos. No sentido filosófico precisamente. Não parava nunca, realmente nunca. Imediatamente após os anos de movimento, mudou-se para Brasília para servir ao Ministério da Educação, para realizar concretamente uma campanha de alfabetização excepcional. As classes mais endinheiradas sentiram a ameaça desse projeto e obviamente se opuseram a ele, temendo tumultos em nome dos direitos. Tudo isso faz parte do conhecimento histórico desta parte do mundo, mas também faz parte da minha vida.

Freire também combateu uma certa visão petrificada da paternidade e da maternidade "opressora". Para não gerar mal-entendidos sobre o assunto, deixo para você explicar seu significado.

Papai disse: "Não tenho dúvidas de que minha principal tarefa como pai amante da liberdade, mas não licencioso, ciumento de minha autoridade, mas não autoritário, não é administrar a opção partidária, religiosa ou profissional de meus filhos, orientando-os para isso ou aquele partido ou esta ou aquela igreja ou profissão. Pelo contrário, sem omitir minha visão partidária nos vários campos, meu dever é testemunhar diante deles meu profundo amor pela liberdade, meu respeito pelos limites sem os quais minha liberdade murcha; o meu respeito pela sua liberdade de aprendizagem, para que, amanhã, façam pleno uso dela".

Quando pensamos em Freire, pensamos sobretudo na redenção dos últimos, dos oprimidos, num sopro de ar fresco. Como você é afetada como filha?

Um pouco igual a todo mundo: uma rajada de ar fresco. Muitas vezes penso no fato de meu pai ajudar os outros com as palavras certas, com cultura, com o autêntico espírito de serviço e amor - sim, ele usou esse termo - até no diálogo com o aluno de plantão; fez o máximo, com coragem, pelos países que conquistaram a independência e organizaram seus planos educacionais com a alegria e o gosto do amanhã, mas sobretudo com atenção aos direitos. Cabo Verde e Angola, por exemplo, vão conhecê-lo pelo seu imenso trabalho e totalmente dedicado à essencial igualdade entre as pessoas. Esses povos indígenas queriam muito se libertar da consciência do opressor que abrigavam neles, para voltar a ser verdadeiros cidadãos pensantes.

Hoje seu pai é estudado academicamente, mas ele tem o reconhecimento certo em seu país?

Em parte, sim. Em setembro houve o lançamento da cátedra Paulo Freire, que nasce no Rio Grande do Norte. A cátedra se baseia em seus ensinamentos através de seus livros, mas também no estudo histórico de seu pensamento, como progenitor de nossa educação latino-americana. Estudaremos também seu impacto na educação mundial de hoje, sua vocação para os esquecidos e sua ação, no mundo, em nome de uma pedagogia libertadora. São sinais importantes, porque ainda hoje, em várias partes do mundo, há um analfabetismo alarmante e um desejo escasso, por parte dos mais poderosos, de eliminá-lo. A esperança e a tenacidade na esperança são sempre necessárias para não se deixar abater por um momento triste.


Un debito verso il futuro

Paulo Freire è noto a tutti perché considerato uno degli educatori più importanti del XX secolo, ma soprattutto perché ha scelto di insegnare ai tanti dimenticati dell’America Latina, invitandoli a prendere coscienza dei loro diritti. La sua pedagogia, a oggi, è sinonimo di ricerca, quasi ostinata, di quell’irraggiungibile uguaglianza sociale, di critica educante per un necessario risveglio dalle manipolazioni di ogni tipo, ma anche di alfabetizzazione in costante cammino. Il cammino di cui parla Freire non è metaforico, ma fatto di viaggi, di una pedagogia sì della domanda, ma anche dell’incontro autentico con l’altro nella sua piena corporeità. 

La pedagogia della speranza, una sua grande opera, è, ad esempio, un nuovo modo di concepire il rivoluzionario concetto di speranza che Freire discute, analizza e, soprattutto, difende come componente integrale ed essenziale dell’educazione. In esso, presenta ai lettori di allora, ma anche di oggi, il volto costruttivo della speranza, che non è statica né puramente emotiva, ma è forza formativa e progettuale. È un messaggio indirizzato soprattutto agli intellettuali degli anni Settanta, i quali, a suo avviso, erano caduti pericolosamente nella tentazione neoliberista di disinteressarsi del popolo a favore di un progresso spregiudicato e selvaggio. Recentemente in Brasile è stata pubblicata una biografia filosofica di Freire, a cura del filosofo dell’educazione Walter Omar Kohan, uno dei principali studiosi del pensiero del pedagogista (1921-1997).

È bello e quasi commovente lasciare che di Freire parli una delle figlie, Fatima, a sua volta protagonista della pedagogia dei nostri giorni. «Come vien fuori dalla biografia di mio padre, lui è cresciuto in una famiglia profondamente cattolica e ha ricordato spesso di non aver mai abbandonato la sua fede nonostante la forte influenza della filosofia marxista sui suoi scritti. Mio padre mi ha insegnato tante cose, anche suo malgrado, ma soprattutto mi ha fatto comprendere che ogni educatore è, per prima cosa, un debitore, che deve trasmettere tutto ciò che ha imparato e, se possibile, deve tentare di farlo anche meglio di ciò che ha ricevuto dai suoi maestri. Il vero debito, però, non è verso chi l’ha preceduto, ma verso chi lo attende, domani, a braccia aperte per imparare. L’educatore è debitore verso un futuro che attende di essere riempito». 

Fatima Freire sa di avere una grande responsabilità, nel panorama della pedagogia attuale, da figlia di Paulo, patrono dell’educazione in Brasile oltre che il terzo pensatore più citato nelle opere accademiche di tutto il mondo.  Anche sua madre, però, Elza Maia Costa Freire (1916-1986) è stata una grande educatrice, ed è a lei che Fatima attribuisce la sua maggiore influenza per aver seguito questo percorso pedagogico. 

Come mai cita sua madre e non suo padre?

Da bambina accompagnavo la mamma alla scuola pubblica, dove lavorava come direttrice e le piaceva tanto, lo faceva con un entusiasmo unico. Ovviamente ho ricevuto tantissimo anche da mio padre, ma io ero sempre accanto alla mamma, mentre papà aveva anche il compito di aiutare gli altri, andando nei villaggi più lontani. E questo suo cammino non poteva essere fermato. Da entrambi ho compreso io stessa che non posso fermarmi: c’è tanto da fare qui da noi per combattere l’analfabetismo dei più poveri, quelli totalmente dimenticati. Come dico sempre, mio padre mi ha influenzata proprio perché non mi ha influenzata. 

La vita dei suoi genitori è certamente entusiasmante: quale episodio ha più impresso?

Difficile dirlo, gli episodi son stati tantissimi. Per esempio ricordo che papà lavorò anche nei movimenti di educazione popolare d’inizio anni Sessanta; anzi, fu uno dei fondatori del Movimento de Cultura Popular di Recife, e vi lavorò, affiancato da altri grandi intellettuali, nella direzione di contribuire, attraverso la valorizzazione della cultura popolare, alla presenza partecipativa delle cosiddette masse nella società brasiliana. Magari oggi è difficile capire che cosa realmente volesse dire, ma non per chi conosce bene l’America Latina di quegli anni. Gli incontri di allora sono indelebili nella memoria di noi figli. Quel movimento ha segnato profondamente lui e tutta la nostra famiglia, ma anche la storia della nostra gente. Con il suo ampio concetto di educazione popolare progressista, ha influenzato la campagna De Pé no Chão Também se Aprende a Ler (“Anche se sei miserabile impara a leggere”) realizzata dal sindaco di Natal, a Rio Grande do Norte, un luogo che, anche oggi, vive nella gratitudine verso mio padre. Questo lavoro intenso e capillare nelle aree rurali gli permise di essere conosciuto, a livello nazionale e internazionale, come educatore legato ai problemi del popolo, alle loro questioni politiche, secondo l’alta accezione degli antichi greci. In senso filosofico appunto. Non si fermava mai, proprio mai. Subito dopo gli anni del movimentismo, si trasferì a Brasilia al servizio del Ministero dell’Educazione, per realizzare concretamente un’eccezionale campagna di alfabetizzazione. Le classi più agiate avvertirono la minaccia di quel progetto e, ovviamente, si opposero, temendo rivolte in nome dei diritti. Tutto questo fa parte delle conoscenze storiche di questa parte di mondo, ma fa parte anche della mia vita.

Freire ha combattuto anche una certa visione pietrificata della paternità e della maternità “oppressiva”. Per non generare fraintendimenti sul tema, lascio a lei il compito di spiegarne il senso.

Papà diceva: «Non ho dubbi che il mio compito primario di padre amante della libertà, ma non licenzioso, geloso della mia autorità, ma non autoritario, non sia quello di gestire l’opzione partigiana, religiosa o professionale dei miei figli, guidandoli a questo o quel partito o a questa o a quella chiesa o professione. Al contrario, senza omettere la mia visione partigiana nei diversi ambiti, il mio dovere è quello di testimoniare dinanzi a loro il mio profondo amore per la libertà, il mio rispetto per i limiti senza cui la mia libertà appassisce; il mio rispetto per la loro libertà nell’apprendere, affinché, domani, ne facciano pieno uso».

Quando pensiamo a Freire, pensiamo soprattutto a un riscatto degli ultimi, degli oppressi, a una boccata d’aria. A lei, da figlia, che effetto fa?

Un po’ lo stesso di tutti: una boccata d’aria appunto. Penso spesso al fatto che mio padre aiutava gli altri con le parole adatte, con la cultura, con l’autentico spirito di servizio e di amore — sì, lui usava proprio questo termine — anche nel dialogo con l’allievo di turno; si prodigava, con coraggio, per i Paesi che avevano conquistato l’indipendenza e organizzava i loro piani educativi con la felicità e il gusto del domani, ma soprattutto con l’attenzione ai diritti. Capo Verde e Angola, per esempio, lo conosceranno per questo suo lavoro immenso e pienamente votato all’uguaglianza imprescindibile fra le persone. Questi popoli indigeni volevano davvero liberarsi dalla coscienza dell’oppressore che ospitavano in loro, per tornare a essere veri cittadini pensanti.

Oggi suo padre è studiato a livello accademico, ma nel suo Paese ha il giusto riconoscimento?

In parte sì. A settembre c’è stato il lancio della cattedra Paulo Freire, che nasce proprio a Rio Grande do Norte. La cattedra si basa sui suoi insegnamenti attraverso i suoi libri, ma anche sullo studio in chiave storica del suo pensiero, come capostipite della nostra educazione latinoamericana. Si studierà anche il suo impatto sull’educazione odierna mondiale, la sua vocazione verso i dimenticati e la sua azione, nel mondo, in nome di una pedagogia liberatrice. Sono segnali importanti, perché anche oggi, in diverse aree del mondo, c’è un analfabetismo allarmante e una scarsa voglia, da parte dei più potenti, di eliminarlo. Occorre sempre la speranza e la tenacia nella speranza per non lasciarsi sopraffare da un’epoca triste.

Dorella Cianci
23 Febrero 2022
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